Por que a Amazônia não pega fogo?

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É impressionante como em plena era digital, onde as pessoas não precisam mais ir à biblioteca ou comprar livros caros para ter acesso às informações básicas sobre ciências dos quais, por muito tempo, foi privilégio de poucos, as pessoas não sabem lidar com essa facilidade e caem tão facilmente em discursos manipuladores. Impressiona ainda mais a nossa educação, que não consegue dar conta de ao menos despertar os alunos contra as mentiras proferidas por especialistas, que se prestam a desinformar e enganar seu público à revelia da sua ética profissional como cientista.

Quem já estudou Geografia sabe (ou deveria saber) que os valores de precipitação são elevados próximo à Cordilheira dos Andes deve-se à ascensão orográfica da umidade transportada pelos ventos alísios de leste da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), papel que eles desempenham na manutenção da umidade trazida do atlântico equatorial para o continente, deixando aquela região, já muito quente, extremamente úmida E mesmo aqueles que nunca pisaram em uma sala de aula, mas que moram naquela região, sabem bem a facilidade como a vegetação cresce e toma de conta do local; abandone uma casa por um ano e tudo estará tomado de mato, tornando o lugar irreconhecível.

A região Amazônica possui uma precipitação média de aproximadamente 2300 mm.ano-1, embora tenham regiões (na fronteira entre Brasil e Colômbia e Venezuela) em que o total anual atinge 3500 mm. Nestas regiões não existe período de seca. De maneira geral toda essa precipitação está distribuída durante o ano. Em Belém, por exemplo, é tradição nos períodos de junho a agosto, época da seca naquela região, marcarem compromissos “depois da chuva” da tarde, que ocorre praticamente no mesmo horário, período onde as precipitações sucedem no momento mais quente do dia. Na região costeira (no litoral do Pará ao Amapá), a precipitação também é alta e sem período de seca definido, devido a influência das linhas de instabilidade que se formam ao longo da costa litorânea durante o período da tarde e que são forçadas pela brisa marítima. O restante do ano chove praticamente todos os dias, a qualquer horário.

No entanto, esse padrão de crescimento florestal é uma realidade em boa parte do país e qualquer brasileiro pode testemunhar o crescimento do mato causado pela presença de chuva e umidade por morarmos em um país tropical. O que é lamentável é ver as pessoas dando ouvidos a esses especialistas, muitos dos quais nunca pisaram na Amazônia, nos explicando um conceito que contraria às nossas próprias observações.
Tentar explicar para brasileiros que a floresta amazônica não pega fogo soa tão escandalosamente básico quanto tentar explicar que a grama é verde. É um completo diagnóstico de falência do nosso sistema educacional do qual precisa ser revisto com urgência, se não quisermos que isso se torne uma questão de segurança nacional.

Josiana Zanotelli dos Santos – Conselheira do Instituto Intelectos
Doutora em Agronomia e mestrado pela Universidade de Brasília, Graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Uberlândia.

http://climanalise.cptec.inpe.br/~rclimanl/boletim/cliesp10a/fish.html